Cobranças e críticas dão o tom da sessão ordinária da Alesc
A sessão ordinária dessa quinta-feira (4) na Assembleia
Legislativa foi marcada por cobranças dos deputados sobre pontos do regimento
interno e por críticas ao governador Carlos Moisés e à lentidão no processo de
vacinação contra a Covid-19. O governo federal também foi alvo de reclamações
pela demora em executar obras de infraestrutura, principalmente em rodovias
federais que cortam o Estado.
O primeiro a focar seu discurso no regimento foi o deputado
Sargento Lima (PSL). Segundo o parlamentar, os acordos de líderes têm sido
adotados como regra, quando deveriam ser exceções nos trabalhos legislativos.
“A gente prepara uma estratégia, se organiza com base no regimento e quando
chega aqui, tem um acordo que desfaz tudo”, queixou-se. “Minha expectativa é
que a gente use o regimento. O acordo é uma ferramenta, mas não pode ser usado
como regra, pois isso causa insegurança."
Sargento Lima também cobrou que os parlamentares sejam mais
atentos aos prazos de tramitação dos projetos. Para o deputado, é necessário
“começar a cumprir prazo, porque senão os projetos não andam.”
Ele também tocou no ponto das emendas, que, na sua opinião,
vêm sendo usadas não para aperfeiçoar os projetos, mas para modificar
totalmente a proposta inicial. “As emendas são ferramentas do Legislativo e
servem para edificar, para ajudar a construir, fortalecer o projeto. Não é para
mudar o projeto, que dizia para fazer ‘A’ e a emenda manda fazer ‘B’”.
Por fim, o deputado também criticou a adoção de regime de
urgência em matérias que, na visão dele, não mereceriam essa condição. “Caráter
emergencial é outra coisa que precisa discutir. Serei contra colocar matérias
enviadas pelo Executivo em caráter emergencial. Não vou fazer mais isso.
Emergência é uma tragédia como a de Presidente Getúlio”, exemplificou.
O 1º vice-presidente, deputado Nilso Berlanda (PL), tratou
de garantir a fidelidade da Alesc ao regimento interno. “Em meu nome e em nome
da Mesa, digo que faremos o possível para cumprir o regimento da Casa.”
Alteração no regimento
O deputado Bruno Souza (Novo) revelou que vai apresentar um projeto de
resolução para alterar pontos do regimento interno que tratam dos prazos de
tramitação de propostas nas comissões. Ele defendeu que o prazo seja contado em
semanas, e não em reuniões do colegiado.
Como exemplo, usou um projeto de lei (PL) que permite a
educação familiar, que, segundo o parlamentar, “é o mais antigo dessa
legislatura ainda não votado”. Bruno Souza acusou a presidente da Comissão de
Educação, Cultura e Desporto, deputada Luciane Carminatti (PT), de
deliberadamente travar a tramitação do PL por ser “ideologicamente contra” a
proposta.
“Isso não é leal com esse parlamento, com esse deputado, com
as pessoas que fazem educação familiar”, disse o deputado, que foi apoiado em
apartes pelos colegas Sargento Lima e Jessé Lopes (PSL).
O deputado aproveitou para lançar a candidatura da deputada
Ana Campagnolo (PSL) a presidente da Comissão de Educação. “Nós, que
representamos liberais e conservadores, precisamos conversar para colocar
outras pessoas, alguém que não trate com preconceito pautas que são
contrárias.”
A resposta da deputada petista veio durante a Ordem do Dia, quando seria votado um requerimento para dar prioridade ao projeto. Segundo a parlamentar, não houve qualquer ação para travar a tramitação do projeto de Bruno Souza e ainda alegou desrespeito por parte do autor da matéria. “Isso não procede e eu me sinto totalmente desrespeitada como presidente da comissão. Estou no meu terceiro mandato e nunca vi isso acontecer na Casa. As comissões são respeitadas no mérito e na tramitação.”
Carminatti fez um histórico da tramitação do projeto de lei complementar (PLC)
para demonstrar que não houve travamento. “Esse PLC foi lido em plenário dia 26
de fevereiro de 2019. Foi aprovado na CCJ no ano passado, um ano e meio depois,
dia 2 de junho de 2020. Ele veio para a Comissão de Educação depois de junho do
ano passado”, recordou a deputada.
“Eu apresentei um parecer, que foi aprovado por unanimidade,
pelo diligenciamento, dia 24 de agosto. Não veio resposta, o deputado Bruno
cobrou, fiz novo diligenciamento, também aprovado dia 11 de dezembro por
unanimidade. Ficou um ano e meio na CCJ, ninguém pediu prioridade, ninguém
disse que estava sendo segurado pelo presidente da comissão”, completou.
O requerimento foi retirado de pauta por falta de quórum
para votação.
O deputado Dr. Vicente Caropreso (PSDB) também criticou a
lentidão da tramitação de projetos e defendeu a aprovação urgente do novo
Código Sanitário, que já está na Casa desde o governo passado.
Rodovias federais
As condições das malhas rodoviárias estadual e federal em Santa Catarina
renderam críticas aos governos estadual e federal. O deputado Kennedy Nunes
(PSD) disse ter ficado “perplexo com a notícia de que o governador Carlos
Moisés foi a Brasília, na semana passada, para tratar das condições da BR-470 e
ofereceu ajuda financeira ao governo federal para as obras da rodovia”.
Kennedy mostrou fotos do trecho entre Taió e Salete da
SC-114, com buracos, água sobre a pista e diversos outros problemas para
exemplificar as condições das rodovias estaduais. “Não dá para entender um
governo que não consegue manter suas rodovias e vai a Brasília oferecer ajudar
para um compromisso do governo federal. Se nossas rodovias estivessem todas
boas, compreenderia a oferta de ajuda.”
Além da SC-114, Kennedy citou rodovias nas outras regiões,
lembrando dos custos que as péssimas condições das estradas geram para o escoamento
da produção agrícola e industrial. O deputado Mauricio Eskudlark (PL) engrossou
as críticas à oferta de ajuda estadual, citando a BR-163 e as promessas do
governo federal de que as obras seriam iniciadas em agosto do ano passado e até
agora não saíram do papel.
Eskudlark ressaltou que grande parte da população
catarinense apoia a gestão de Jair Bolsonaro, mas que isso precisa ser
revertido em benefícios para o Estado. “Apoiamos o presidente, mas ele tem que
dar o retorno que Santa Catarina merece nas obras federais.”
Pacto federativo
O tema das estradas gerou críticas também ao retorno de impostos federais pagos
pelos catarinenses, começando pelo deputado Bruno Souza. Segundo ele, Santa
Catarina é o sexto em arrecadação federal, mas apenas o 20º em recebimentos. “O
Brasil deve pra gente e ainda temos que mendigar para fazer uma estrada. A
notícia de que o estado vai ajudar é revoltante. Santa Catarina não pode mais
continuar vivendo sob esse pacto colonial.”
O parlamentar defendeu a revisão do pacto. “Esse pacto
federativo não deve ser aceito. Temos que revisar ou sair desse pacto. A cada
R$ 100 que mandamos, R$ 15 nos retornam. Afinal, não temos filas no SUS? Não
temos escolas com necessidades?”, questionou.
De acordo com o deputado, a Assembleia Legislativa não
consegue decidir nada da vida dos catarinenses “porque tudo está centralizado
em Brasília, onde temos apenas 16 deputados federais”. Para ele, essa situação
coloca os destinos dos catarinenses nas mãos de parlamentares que não são
daqui. “Essa casa legislativa deveria ser o centro das decisões catarinenses,
mas nosso destino é decidido por 497 deputados de fora de Santa Catarina”.
Lentidão da vacinação
O deputado Neodi Saretta (PT) fez um discurso forte sobre o ritmo da vacinação
contra a Covid-19 no Brasil. Saretta listou algumas dificuldades enfrentadas,
como questões burocráticas impostas pela Agência Nacional de Vigilância
Sanitária (Anvisa) e a recusa do governo federal de estabelecer parcerias com
alguns laboratórios.
“A preocupação é com o ritmo. Já faz quase 20 dias que a
vacinação começou e Santa Catarina aplicou apenas 36% das doses que recebeu”,
revelou. “Tem município que vacina até cinco da tarde de sexta e não vacina no
sábado nem domingo”, completou o deputado.
Saretta comentou que o Brasil já vacinou, em outras
campanhas, mais de 10 milhões por dia. “Estamos aqui com 20 dias de campanha
com 2,4 milhões de vacinados.”
Como presidente da Comissão de Saúde da Alesc, Saretta
elogiou o trabalho do secretário de Estado da Saúde, André Motta Ribeiro, mas
cobrou dele a investigação sobre o que está acontecendo para a vacinaçãoe estar
tão devagar no Estado.
O parlamentar também defendeu que Santa Catarina não espere
apenas pelo SUS nacional e tente comprar vacinas. “Teve município que recebeu
R$ 60 milhões para tratar da pandemia. Se comprasse vacina para todos, gastaria
R$ 3 milhões”, disse Saretta.
Em aparte, o deputado Ismael dos Santos (PSD) apoiou o
colega. “É lamentável que Santa Catarina, com 7 milhões de cidadãos, tenha 70
mil doses aplicadas.”
Dr. Vicente Caropreso também defendeu a realização de uma
reunião com o secretário da Saúde para tratar do assunto. Para ele, uma “luta
ideológica” tem travado a vacinação. “Tem profissionais da saúde se recusando a
tomar determinadas vacinas”, lamentou.
Caropreso, que é médico e faz parte da Comissão de Saúde,
apresentou uma moção de aplauso aos profissionais da área neste primeiro ano da
pandemia, quando muitos adoeceram e também houve casos de morte de familiares e
dos próprios profissionais.
Crianças, adolescentes e idosos
Felipe Estevão (PSL) revelou ter recebido, na noite desta quarta-feira (3), em
Laguna, o secretário Nacional da Pesca, Jorge Seif Júnior, para tratar das
prioridades do setor e investimentos em eventos.
O deputado relatou reunião que teve com a ministra da
Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, para contar que está
empenhado pelas bandeiras da criança, do adolescente e do idoso. “Não há muitas
pessoas que se dedicam a essa causa.”
Segundo o parlamentar, há uma previsão de que a violência
doméstica contra a criança pode ter aumentado em até 30% nessa pandemia, fora
os casos de violência contra adolescentes e idosos. “Somente de janeiro a
agosto do ano passado, foram 968 casos de estupro de crianças em Santa Catarina”,
lamentou o deputado, que deve fazer parte, nesse biênio, das comissões de
Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente e dos Idosos.
Estevão defendeu a maior aproximação com o governo federal
nessa questão. “Quero me unir com Brasília para construir a Santa Catarina que
a gente merece”.
Derrubada de veto
O deputado Marcius Machado (PL), autor de um projeto de lei que permitia o
parcelamento de dívidas com o Estado, defendeu a derrubada do veto do
governador Carlos Moisés à proposta. Segundo Machado, o PL já tinha sido
acordado com o governo, mas foi vetado, prejudicando os empresários
catarinenses.
“Tem que derrubar o veto, em favor do empresário que não
dorme por estar devendo. Conheço empresários que louvaram a Assembleia, mas
foram surpreendidos pelo veto.”
Homenagem
Dr. Vicente Caropreso prestou uma homenagem ao jornalista Flavio Brugnago, do Jornal do Vale do Itapocu, que completou 70 anos de idade. “São mais de 44 anos de luta pela informação de qualidade. Que continuem nesse enfrentamento de levar esse tipo de informação à população."
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ROMAN RAITER - JUSTIÇA AO OASE